sábado, 1 de agosto de 2026

O VENTRÍLOQUO

Foto: Google Gemini



Viagens de trem não eram comuns, mas eram uma alternativa rápida no trajeto entre o interior e a capital e tornaram-se rotina com o novo trabalho. Naquele dia, estava tudo meio igual: vagão cheio, pessoas e seus diversos odores, suor, perfume, cigarro… uma verdadeira biblioteca de cheiros disponível. Sem falar nos artistas, pedintes e vendedores que passavam de vagão em vagão tentando a sorte do dia. Aparecia de tudo: desde o repentista com seu talento para o improviso até os vendedores de fones com microfone e tudo mais que o Paraguai e a China pudessem criar.

Ele era mais um naquela multidão. Em silêncio, passava a viagem lendo um jornal ou um livro. Ouvia todo o burburinho, mas não participava de nada. Sua expressão era neutra, quase uma mistura de melancolia com tristeza.

Porém, naquele dia as coisas mudariam. Era para ser só mais uma viagem de trem, com os mesmos trajetos, as mesmas pessoas e as mesmas conversas, mas não foi. Entre os artistas que passaram por ele, estava um ventríloquo e seu boneco.

Por alguma razão, aquela cena o prendeu. O artista dava vida a um boneco macabro, um tipo de palhaço misturado com criança que, surpreendentemente, cativava as pessoas com frases bonitas, mensagens de reflexão, brincadeiras e algumas piadas. Apesar da aparência, a figura era simpática.

No entanto, tudo o que o boneco tinha de vida, o homem tinha de melancolia. Apresentava uma fisionomia magra, triste, quase de uma pessoa subnutrida, com roupas velhas e um olhar fundo e abatido.

Logo pensou que o homem poderia ser alguém em situação de rua, uma pessoa que talvez passasse fome e outras privações e gastasse toda a sua energia para dar vida ao brinquedo e ganhar alguns trocados. Por fim, o passageiro voltou ao livro.

Mas, como num passe de mágica, em pouco tempo o artista e o boneco estavam ao seu lado, puxando conversa e tentando fazê-lo de atração no vagão. Ele decidiu ignorar e focou na leitura, porém parecia que aquele palhaço falava dentro de sua cabeça, lendo as frases do livro com a sua própria voz.

Já estava agoniado, sentindo calafrios, quando o trem chegou à sua estação. Desceu rapidamente e caminhou sem olhar para trás. Depois de andar um pouco, aquela sensação ruim passou. Resolveu parar em uma banca e pegar um energético. Enquanto esperava, viu-se refletido no vidro de um prédio. Até aí nada de mais, não fosse pelo palhaço logo atrás dele.

Aquela cena o fez entrar em pânico. Saiu correndo sem pegar o energético ou o troco. Chegou ao prédio onde trabalhava sem ar, com o coração acelerado e suando frio. Quando questionado, justificou que temia estar atrasado.

Na verdade, o temor era outro: aquele boneco macabro parecia persegui-lo. Passou o dia relembrando a cena. Sentia-se protegido ao menos no décimo andar do edifício. Porém, naquele dia, evitou andar sozinho e até mesmo olhar-se no espelho.

Na volta para casa, temia reencontrar o ventríloquo. Chegou a pensar em evitar o transporte, mas foi assim mesmo, e nada aconteceu. Voltou para casa tranquilamente, e tudo parecia estar em paz.

Na hora de dormir, contudo, sentiu novamente aquela sensação ruim e fez uma oração improvisada. Ao pegar no sono, foi como se a cena do dia se abrisse na página do vagão. Era como se o boneco estivesse esperando que ele adormecesse para retornar à sua mente com força. No pouco que dormiu naquela noite, acordava suando, com o coração acelerado, ofegante, com um medo jamais sentido antes.

E, na manhã seguinte, teria que encarar aquilo novamente? Pensou ele. Chegou a cogitar ir ao trabalho de ônibus, mas precisaria de pelo menos três conduções. Quem sabe um carro de aplicativo? Mas era muito caro. O jeito era encarar o trem.

Estava sem entender o que sentia, mas foi mesmo com medo. Naquele dia, ficou extremamente atento, sem leitura ou qualquer distração. Cada estação era uma agonia constante: Onde será que ele vai entrar? Será que já entrou? As mãos suavam, os olhos atentos ardiam, mas naquele trajeto nada aconteceu.

Estaria finalmente livre daquele fantasma? Poderia voltar a fazer o percurso com tranquilidade? Aparentemente, sim. O resto do dia transcorreu na normalidade.

Mas, na hora de voltar para casa, o único estresse previsto era o trem lotado. Não foi apenas isso. Após entrar e conseguir um espaço, quando pensou em relaxar, ouviu aquela voz novamente — a voz que lhe tirara a paz nos últimos dias. O ventríloquo estava no seu vagão.

Como o local estava cheio, ele tentou se distrair com a conversa dos outros, desviar o olhar, pensar em coisas aleatórias que o fizessem esquecer aquele som. Mas parecia que nada funcionava e, quanto mais tentava, mais o homem e o boneco se aproximavam.

Conforme o vagão esvaziava, os dois avançavam. Quando percebeu, já estavam lado a lado. A estratégia de ignorar seguia firme, mas, de repente, algo o arrepiou por inteiro: o boneco aproximou-se do seu ouvido e murmurou:

— Você quer brincar?

Ele se manteve em silêncio, mas o coração parecia que ia explodir. Suava gelado e sabia que a próxima parada seria a última — a sua — e que talvez o homem também descesse ali.

E assim foi. Chegaram à última parada e todos desembarcaram. Ele apertou o passo. Logo ao sair da estação, avistou um táxi, fez sinal e entrou. Cumprimentou o motorista, passou o destino e começou a rolar a tela do celular.

O motorista percebeu sua agitação e perguntou:

— Está tudo bem?

Ele respondeu:

— Sim, estou apenas cansado.

Ao levantar a cabeça para responder, percebeu que o motorista tinha pendurado no retrovisor um chaveiro de palhaço. Manteve a calma, olhou novamente para o celular e, depois de um tempo, ao erguer os olhos e mirar o espelho, viu a silhueta do boneco. Seus olhos paralisaram; o suor escorria pela testa. Ao notar o estado do passageiro, o motorista perguntou novamente:

— Está tudo bem?

Ele apenas balançou a cabeça positivamente.

Ao descer, entrou rápido em casa e trancou tudo, mas não conseguia parar de pensar na figura. Parecia que ela se formava até na fumaça do banheiro durante o banho quente. Tentava respirar, acalmar-se e focar em outras coisas, mas aquilo martelava em sua cabeça.

Resolveu abrir o notebook e pesquisar sobre bonecos de ventríloquo em formato de palhaço, mas não encontrou nada de relevante ou que explicasse aquela súbita obsessão.

Assim que pegou no sono, seu sonho foi o mesmo das últimas noites: estava no trem e, em seguida, o homem e seu boneco apareciam ao seu lado. Geralmente, nesse momento ele acordava, mas, desta vez, foi diferente. Tudo parecia extremamente real: as pessoas, os cheiros, os ruídos.

Ao seu lado esquerdo estava o homem com o boneco. O artista permanecia de olhos fechados, com o palhaço no colo. Aproveitando o momento, observou-o melhor. A roupa velha e rasgada já não chamava atenção; o que realmente o prendeu foi o braço em que o boneco estava encaixado: as veias eram grossas, escuras, e o encaixe parecia aprisionar a mão do velho.

Enquanto observava, o homem virou-se e, sem abrir os olhos, disse:

— Me ajude… estou preso. Ele quer você.

Ao ouvir aquilo, o rapaz ficou sem reação. Tentou disfarçar e se levantar, mas o velho abriu os olhos, segurou o boneco e saiu.

Ele permaneceu ali parado. A taquicardia, o suor e aquelas palavras eram sua única companhia. Tudo ao redor parecia ter se desintegrado. Ao tentar relaxar, foi tocado no ombro. Era um funcionário da limpeza do trem, que avisou:

— Senhor, fim da linha.

Somente naquele instante percebeu que ainda estava no trem. Teria sido um sonho ou apenas um transe provocado pelo medo? Aquela conversa realmente acontecera? Nada fazia sentido, pois sua última lembrança era estar em casa indo dormir.

Independentemente disso, precisava esclarecer a história. Estava decidido a conversar com o velho no dia seguinte e entender o que estava acontecendo.

Na manhã posterior, o homem e seu boneco não surgiram no trem. Sentiu um certo alívio, mas, para quem precisava tirar uma dúvida, aquilo também era um fardo.

No fim da tarde, ao embarcar novamente, avistou os dois. De longe, observou o braço do velho: era exatamente igual ao do sonho. Olhava disfarçadamente, mas, sem que percebesse, o velho também o observou e sorriu.

Ele manteve a expressão neutra, desceu na mesma estação que o artista e o seguiu a distância.

Caminhou cerca de quarenta minutos até se aproximar de um aterro sanitário, onde havia algumas casinhas feitas de papelão e materiais recicláveis. O homem morava entre duas delas, bem na entrada do terreno.

Foi em direção à habitação. Hesitou em bater, mas, quando tomou a decisão, a porta se abriu e o homem falou:

— Estava esperando por você.

Ele ficou sem reação, mas entrou e perguntou:

— Quem é você? E como sabia que eu viria?

O homem respondeu:

— Eu simplesmente sei. Todos sempre vêm, mas nem todos são escolhidos.

Ele retrucou:

— Escolhidos para quê?

O homem olhou para o próprio braço, mostrou o boneco e explicou:

— Para ele. Ele escolhe quem quer usar.

Somente naquele momento o jovem percebeu que o homem ainda estava com o boneco preso ao membro.

O ancião continuou:

— Encontrei esse boneco aqui no lixo. Levei para casa, lavei, reformei… iria doá-lo para alguma instituição. Mas comecei a ter sonhos nos quais o usava em apresentações artísticas e ganhava muito dinheiro. No começo achei que era apenas ilusão, mas parecia que ele falava comigo, que queria ser usado. Até que um dia cedi à tentação e o encaixei no braço. Desde então, sou usado por ele. O dinheiro e a riqueza nunca vieram; estou apenas perdendo o pouco que tenho.

Ele ouvia com atenção, tentando disfarçar o pavor, até que questionou:

— Como sabe disso tudo? E por que não o tira do braço?

O homem respondeu:

— Nessas apresentações no trem, conhecemos muitas pessoas. Certo dia, encontrei um indígena… ou cigano, não sei direito. Ele me perguntou sobre o boneco. Contei a história, e ele disse que o conhecia. Falou que pertencera a um povo que vinculava a energia das pessoas a objetos.

Ele perguntou novamente:

— Mas por que ele não ajudou você a tirá-lo?

O homem continuou:

— Ele até tentou, mas não deu certo. Depois desapareceu, e o boneco grudou ainda mais no meu braço. Por isso as veias estão escuras e grossas. Ele me mantém vivo porque sou apenas o hospedeiro.

— E por que você disse que ele me quer?

— Não sei exatamente. Ele apenas escolhe as vítimas, drena sua energia e depois "apaga", como agora, que parece estar dormindo. Provavelmente quer você porque é jovem, forte e não demonstrou desprezo no primeiro contato.

— Mas… e se eu não quiser?

— Não sei. Talvez ele enlouqueça você até que aceite, como fez comigo. Não há como saber… sequer sei o que vai acontecer comigo.

O rapaz levantou-se, despediu-se e saiu.

Durante todo o caminho de volta, refletiu sobre o que ouvira e buscou soluções para aquele dilema.

Após processar tudo, deixou o medo de lado e passou a acompanhar o ventríloquo no trem, na tentativa de entender melhor o que ocorria, conhecer o homem e encontrar uma saída para a maldição.

A rotina seguiu assim por meses, até que uma amizade começou a surgir entre eles — ainda que mantida com cautela, pois o objetivo principal era vencer a entidade.

Em meio a isso, os pesadelos continuavam. Agora o boneco parecia falar diretamente com o jovem, dizendo que o momento estava chegando e que logo seriam um só.

Foi justamente após um desses pesadelos que ele resolveu se levantar e ligar a televisão. Naquela madrugada, passava uma reportagem sobre biologia em que um professor explicava as relações entre parasitas e hospedeiros, usando células como exemplo.

Aquela informação gravou-se em sua mente. Como aquilo poderia ajudá-lo em sua jornada? Não podia pedir socorro alegando que um espírito em um boneco queria seu corpo, nem saberia explicar à polícia que o velho precisava de ajuda para remover do braço um objeto que ele mesmo encaixara.

Dias depois, enquanto descia as escadas da estação, viu um grupo de pessoas cercar um cachorro de rua. O animal estava coberto de sujeira e carrapatos. Ele tentou ignorar a cena, mas ouviu alguém dizer:

— Precisamos tirar isso dele, senão vão matá-lo!

Automaticamente, lembrou-se da aula sobre hospedeiros e pensou: “E se arrancarmos o boneco?”

Contou ao homem sobre o plano. O ancião achou válido tentar, até porque a criatura lhe sugava a energia e, daquele jeito, ele morreria em breve.

Tentaram puxar, cortar, usar óleo, calor e água para soltá-lo, mas nada funcionava. O boneco tornara-se uma extensão do corpo do homem.

Mesmo assim, o jovem não podia desistir. Continuou pensando em alternativas e chegou a cogitar amputar o braço do velho, mas a princípio abandonou a ideia. Porém, depois de tantas tentativas frustradas, aquela parecia ser a única saída para salvá-lo — e para salvar a si mesmo.

Então traçou um plano. Convidou o homem para um passeio no fim de semana — um trajeto diferente, longe do caminho cotidiano. Iriam de trem, mas por linhas velhas, sujas e perigosas, onde os avisos de “cuidado com a porta automática” eram ignorados devido ao elevado número de acidentes causados pela falta de manutenção nos vagões.

Conforme o combinado, encontraram-se na estação de costume e seguiram viagem.

O homem tentava esconder o objeto, mas o boneco estava ativo, utilizando aquele corpo frágil para se alimentar.

Observando a cena, o sofrimento e a impotência do velho diante da situação, o rapaz teve certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Na hora de desembarcar, ocorreu o tradicional empurra-empurra na saída. Foi nesse momento que ele jogou o próprio corpo contra o homem. O velho escorregou, perdeu o equilíbrio e, na tentativa de não cair, estendeu o braço em que o boneco estava preso.

O membro ficou preso na porta.

A porta fechou.

O trem arrancou.

E o braço foi arrancado do cotovelo para baixo.

As pessoas ouviram o grito do homem e viram a poça de sangue se formar no chão do vagão. O trem seguiu acelerando, levando o braço junto com o boneco.

Seu plano dera certo.

Ao perceber a cena, o rapaz gritou para os passageiros:

— Ajudem aqui! Ele perdeu o braço, mas está vivo!


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segunda-feira, 20 de julho de 2026

​O ABRAÇO DOS DEUSES

 

Foto: internet - Reprodução

​Um abraço, uma despedida, um recomeço!

O abraço de Lamine Yamal e Messi simboliza muitas coisas: um adeus, um afago, um conforto, mas também um obrigado.

​Messi é o jogador do século. Venceu tudo o que podia, venceu tudo o que devia, mas também deu show, espetáculos, verdadeiros atos de um legítimo gênio. No entanto, também sofreu, principalmente com sua gente, sua terra, sua camisa que não se pode tirar.

​Se a Argentina maltratou Messi, ele entendeu que antes da alegria vem o choro, antes da glória vem a luta e que primeiro vem a dor para depois vir o amor.

​E quando o amor chegou, ele transbordou, transcendeu o universo. Cada conquista reafirmava o amor de Messi pela albiceleste.

​Já Yamal é o futuro no presente. É a esperança do futebol lúdico, do drible, da improvisação. Gênios não seguem roteiros. Yamal rabisca as folhas do campo sem medo de errar, sem medo de repetir, sem medo de tentar.

​Yamal é o príncipe que sucede o rei Messi; o trono do bom futebol, da genialidade, do futebol indomável jamais fica vazio.

​Yamal não ganhou a Copa, mas a Copa ganhou Yamal. O futebol agradece aos desobedientes: eles salvam o jogo.

​Para muitos foi só um abraço, mas nós sabemos: foi uma transição.

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

“AQUILO QUÉ SE SIENTE"

 

Foto: Internet - Reprodução


Futebol é sentimento. Talvez essa seja uma grande obviedade, mas afinal Argentina e França ratificaram o sentir. Não preciso, e nem vale a pena, ficar falando da técnica francesa ou da raça argentina.

Mas preciso falar daquilo que se sente. Sim, essa foi a final do sentir. Seja a última força, a última esperança, a última raiva.

De fato, tanto Argentina quanto França provaram sentimentos diferentes durante essa Copa. Os franceses sentiram a ausência de inúmeros desfalques, da possível incerteza, das dificuldades pelo caminho.

Já a Argentina sentiu a pressão de não vencer a tanto tempo, se Deus Maradona os abençoaria e se o semi-deus Messi chegaria ao Olímpio argentino carregando o mundo nos braços.

Messi sentiu a Argentina, viveu a Argentina, cantou a Argentina. 

Messi foi batizado pela alma celeste, definitivamente.

Se em algum momento o fogo raro queimou, foi hoje. Cada gol era uma alegria, uma esperança, um peso a menos. 

Jogo a jogo Messi e seus pares foram vencendo as desconfianças, as confianças em excesso, as dúvidas da estrada.

Messi precisou de pequenos detalhes, seja o passe perfeito, o chute despretensioso, o segundo exato. 

Messi viveu a Argentina, a Argentina viveu Messi.

Maradona finalmente descansou por saber que seu trono está seguro, salvo, imortalizado.

Se Atlas sentia o peso do mudo nos ombros. Messi pegou o mundo nas mãos e carregou com leveza, como carrega seus filhos.

A última dança do gênio foi um tango, brilhante, perfeitamente ensaiando e com o drama que tanto marca o ritmo argentino.

Se o futebol não permite facilidades, a Argentina foi moldada nas dificuldades.

Ah, o jogo foi incrível, inesquecível, talvez a maior de todas as finais.

Mas eu não consigo esquecer Messi sorrindo como a criança que ganha a tão sonhada bola, no caso essa bola é dourada, e tem o peso do mundo.

Aquilo que se sente define a vitória. E ninguém sentiu mais que Messi nesta copa.


Texto publicado após a final da Copa de 2022.

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sábado, 11 de julho de 2026

DOIS CACHORROS

Foto: criada pelo Gemini

 Talvez ele nunca tenha vivido sem a presença de cachorros. Desde suas primeiras lembranças sempre há um cãozinho presente. Seja os da chácara da sua avó, da rua, que levava para casa ou dos que apareciam em seu portão pedindo comida ou água e retribuindo com muito carinho. 

Crescer rodeado de cães e outros animais fez dele um defensor da causa. Tornou-se médico veterinário e usava seu conhecimento para ajudar ONGs e animais abandonados. 

Lembrava com carinho de seus companheiros caninos, os seus inclusive, carregava na pele uma tatuagem. 

A nova vida numa metrópole fazia pela primeira vez com que ele não tivesse cachorros. Não achava justo com o animal deixar ele trancado num espaço de 50 metros quadrados. 

Mas isso estava prestes a mudar. Estava decidido a mudar de vida, morar numa cidade menor, num terreno grande, uma casa tranquila com pelo menos dois cachorros. 

Não foi difícil achar a casa. Seus amigos da ONG indicaram um condomínio em construção, terrenos grandes, segurança e tranquilidade.

Agora o desafio era escolher os parceiros caninos, pensou em adotar, pegar um da rua mesmo, mas algo martelava em seu pensamento. Recentemente ele havia tratado um Dog Brasileiro, cão surgido nos anos 1970 em Caxias do Sul, da mistura de Bull Terrier e Boxer. 

Resolveu ir até lá, conheceu vários canis, até encontrar seus novos parceiros. Um todo branco e um todo preto, chamou-os de Sombra e Escuridão, em referência ao lendário filme dos leões na África. 

E por falar em leões, os cães eram fortes de porte médio, latido forte e extremamente leais. Perfeitos para a guarda da propriedade. A relação com eles era ótima, pois além de proteger a casa, ele sabia que ao chegar teria companhia para passar as noites e os  momentos em que não estava no trabalho.

Aproveitando seus conhecimentos e vivência com os animais para treiná-los. Eles eram cães de proteção, porém, também eram cães de companhia, por isso, treinamento era essencial.

Em meio a isso, não faltava diversão, banhos de mangueira em dias quentes, futebol no fim da tarde, brincadeiras na chuva. Os cães faziam a alegria dele, e também, de algumas pessoas na vizinhança, principalmente, das crianças.

Apesar de serem cães grandes e fortes, eles eram extremamente dóceis e carinhosos com as crianças.

Foto: criada pelo Gemini

Era quase tudo perfeito, já que alguns vizinhos ainda eram receosos por causa dos cães no condomínio. Especialmente um, o comerciante do condomínio não gostava dos animais e expressava isso abertamente, xingava os animais quando passava em frente a casa, fazia campanha nos grupos de WhatsApp sobre o perigo daqueles animais que segundo eles eram “selvagens”.

Porém, nunca havia tido qualquer incidente, bem ao contrário, tanto Sombra quanto Escuridão cuidavam da casa deles e dos vizinhos. Os latidos fortes e o porte imponente afastavam curiosos.

Mas nem mesmo isso acalmava o tal vizinho que parecia ter uma obsessão nos animais. Inclusive por diversas vezes já havia denunciado a presença deles para a Guarda Municipal, mas como não havia evidências ou incidentes, as denúncias eram vistas apenas como reclamações.

Aquela semana foi diferente. Triste. Sem futebol, sol, mas com muita chuva. Os cães estavam tristes por não poder fazerem o que mais gostavam. No entanto, a tristeza da chuva, não seria nada comparada ao que viria, aquela casa, aquela rua e aquele bairro não seriam mais os mesmos. 

A noite escura e o céu carregado permaneceriam ali por muito tempo. Tudo começa numa das tantas noites de chuva, pois os cães não vieram o encontrar, mas estava tudo bem, apenas não queriam se molhar.

Nas redes sociais o comerciante continuava a difamar os animais, era tão chato que ninguém mais ligava, mas ele seguia naquilo que parecia ser sua missão, uma obsessão quase doentia.

No dia seguinte a chuva seguia e novamente os cães não estavam à sua espera, tranquilo ele deduziu que era por conta da chuva. Porém, achou estranho que havia marcas na grade e marcas de pegadas na grama. 

Seguiu as pegadas, o caminho antes, rápido e rotineiro, parecia não ter fim, a bagunça e a sujeira atrapalhavam os passos, até que ele viu algo que o faria de vez parar de andar. A pata de um dos cães e a porta entreaberta, ele acelerou e viu a cena que mudaria para sempre a sua vida.

Seus melhores amigos estavam desacordados, no desespero puxou-os para fora para tentar reanimá-los, porém, nada funcionava, naquele momento as lágrimas já se misturavam com a água da chuva quando ele os colocou dentro do carro e levou para uma das clínicas que trabalhava. Fez tudo o que pode desde reanimações até exames e procedimentos, mas nada adiantava.

Ali naquele momento, o médico deu lugar ao homem que amava seus amigos sobre todas as coisas. O choro era de dor, raiva, impotência, a mais pura tristeza de um ato inexplicável, afinal, eles não faziam mal a ninguém, mas faziam muito bem a ele.

Sozinho colocou os cães numa mesa cirúrgica, tirou sangue e examinou, abriu a barriga e retirou do estômago uma massa de cor estranha que parecia uma mistura de várias coisas.

Usando os equipamentos da clínica fez exames no sangue e naquela coisa que estava no estômago dos animais. Encontrou a substância xilitol. Essa substância pode causar um aumento na insulina que circula no corpo do cachorro. Isso pode diminuir o açúcar do sangue e levar à insuficiência hepática (problemas no fígado) e em grande quantidade leva à morte.

Estava provado, seus amigos haviam sido mortos, chamou a Guarda Municipal, fez a denúncia e pediu uma investigação. A notícia logo se espalhou e foi um misto de dor, comoção e homenagens aos cães e seu fiel amigo que ficava sozinho.

Os dias seguintes foram os piores da sua vida, a solidão da morte, não era parecido com nada que já havia vivido. A casa ficou imensa, o jardim perdeu a cor, nem o sol que voltou brilhava para ele. Era difícil pensar, levantar da cama, trabalhar, respirar. Não haviam palavras, atos, desejos. A tristeza tomava seu corpo, circulava em suas veias, transpirava por sua pele.

A cabeça vazia só pensava em uma coisa: Vingança. Mas do que, de quem? O tempo livre começou a fazê-lo raciocinar, começou a juntar as peças do macabro quebra-cabeça do vazio da sua vida. E todos os caminhos levavam ao vizinho comerciante que odiava seus cães, o homem que chegou a soltar fogos ao saber da morte. 

Tomado pela raiva foi até o comércio do homem, o pegou pelo colarinho e o arrastou para a rua, mas antes que pudesse agredi-lo, os outros vizinhos o separam e o seguraram. Essa atitude foi interpretada como irracional, afinal a tristeza ainda era grande e a ferida estava aberta. Diante disso, seus amigos e colegas acharam que isso era um caso de tratamento médico, à força, o levaram num psiquiatra que o diagnosticou com uma profunda tristeza e um trauma por tudo o que havia visto e vivido.

O médico recomendou afastamento da casa e um período em uma clínica para que pudesse ser acompanhado por uma equipe de profissionais. Estranhamente, ele aceitou sem reclamar.

Na clínica ele não interagia com ninguém, não conversava nem mesmo nas sessões de terapia. Apenas rabiscava um caderno e se trancava no quarto por horas, às vezes mais de um dia, em diferentes momentos, os funcionários tiveram que recorrer à chave reserva para entrar, mas como nunca houve incidentes graves, não retiravam a chave dele.

Enquanto isso, o comerciante do bairro continuava a viver sua vida normalmente. Até que aquele homem chegou, alto, forte, tatuado, cabelo e barba compridos e pediu um remédio para silenciar cachorros, essa era a senha para o composto de xilitol. Ele abriu uma gaveta embaixo do balcão e entregou para o homem um composto de uma massa cinzenta e disse - Isso é tiro e queda, testado e aprovado - o homem sorriu, pagou e saiu. O comerciante baixou a porta de metal satisfeito com o dia e com o lucro extra.

Na clínica, ele parecia bem, ainda em silêncio com seu caderno trancou-se e avisou - preciso ficar sozinho - suas únicas palavras na semana. No condomínio, pela primeira vez em anos, a porta do comércio não se abriu, mas como não havia nenhum comunicado especial, pensaram que poderia ser um imprevisto ou até mesmo uma folga. O que ninguém sabia é que na noite anterior, logo depois de baixar a porta, ele teve uma visita, o mesmo homem que comprou o composto, estava ali e o atingiu na cabeça.

Ao acordar com a cabeça inchada e sangrando percebeu que estava num lugar estranho, uma espécie de galpão, úmido e fedorento. Ao sentir frio percebeu que estava nu e preso em uma coleira, os braços e pernas também estavam presos, parecia um cãozinho indefeso.

Conforme foi abrindo os olhos foi vendo o homem que havia vendido o composto, sentado à sua frente lhe observando. O pavor que tomava seu corpo era maior que o frio de um corpo nu. Quis gritar e só então percebeu que estava com uma espécie de focinheira que o impedia de falar.

O homem se aproximou e disse: - Espero que goste da sua nova casa. Ele ainda tentou falar, mas a focinheira o impedia.

Logo viu o desconhecido colocar sobre a mesa o composto comprado e perguntar: - então é você que anda matando os animais por aqui?

Novamente ele tentou falar, mas sem sucesso. O homem então pegou um chicote e se aproximou, seus olhos estavam esbugalhados de medo. A primeira chicotada nem doeu tanto, pois o medo era maior, mas na sequência foram tantas que logo ele se anestesiou. Com a pele marcada e o corpo encolhido, ele chorava como uma criança que se perde da mãe na multidão.

Então o homem veio e tirou a focinheira e refez a pergunta: então é você que anda matando os animais por aqui?

Com a voz trêmula de dor e medo, o comerciante respondeu: - Não, eu nunca matei nenhu… Antes de terminar, levou uma chicotada no rosto. O homem foi até a mesa, pegou o composto e disse - Então quem me vendeu isso?

O comerciante apavorado tentou explicar, mas não conseguia falar, pois chorava tanto que não conseguia formular as frases.

O homem então puxou as correntes e o deixou de quatro como se fosse um cachorro. E começou a falar: - Se você não vende porque tinha vários na gaveta? Se você não vende porque lançava essas vendas na sua contabilidade como lucro extra? Se você não vende porque comemorou mortes de animais?

O comerciante ainda tentou argumentar: - eu nunca fiz isso! Tudo bem, vendia sim, mas jamais usei em nenhum animal.

O homem o interrompe: - chega! Eu te investigo há meses. Comprei várias vezes esse composto, inclusive você me deu dicas de como usar, contou até casos de sucesso. Você não pode fugir - nesse momento, o comerciante entrou em pânico, pedia perdão, gritava, implorava. 

Após se acalmar veio a pergunta: - O que você vai fazer comigo?

O homem então respondeu: - Vou me certificar que você nunca mais faça isso e sirva de exemplo para que outros que pensam como você não façam também. - Ao terminar de falar, virou-se e puxou uma mala com vários objetos e colocou sobre a mesa.

Tirou dela um facão daqueles do tipo xingu, muito usado por cortadores de cana-de-açúcar. Caminhou até o homem e disse: - vou te tratar como meu cachorrinho.

Enquanto andava pelo galpão e passava uma lima no facão, explicava para o comerciante procedimento considerados padrões para alguns cães como castração e corte do rabo, que apesar de ser contra, entendia quem fazia. Ao terminar, puxou as correntes que o prendiam para que ele abrisse as pernas e os braços, andou até ele, encostou o facão nos genitais. Nesse momento, novamente, ele implorava, mas os gritos de suplício em nada afetam aquele homem que disse: - Vamos aos procedimentos, primeiro a castração para garantir que não haja reprodução. - Nesse momento, segurou os testículos do comerciante e num golpe seco e rápido cortou os dois. Ele berrava de dor até que o homem disse: - Fique calmo, o corte foi pequeno, vai sangrar um pouco, mas você não vai morrer.

Continuou andando em volta do comerciante e falou sobre a caudectomia, procedimento de corte do rabo dos cães e suas razões históricas. Ao passar por trás dele, mais um golpe seco, na altura do cóccix, que tirou um filete de carne e disse: - Pronto cãozinho, agora você está sem cauda.

A essa altura o comerciante já delirava de dor. O homem ainda colocou curativos para conter o sangramento. Porém, voltou à mesa, e continuou a falar: - Além da castração, o corte do rabo tem outras coisas que podem ser cortadas, entre elas está a conchectomia, que consiste em cortar a orelha dos cães - . Nesse momento, virou-se e segurava uma daquelas tesouras de jardinagem e veio em direção a ele. A cada passo, ele batia as lâminas da tesoura deixando o outro apavorado.

Ao chegar encostou na orelha esquerda e cortou a metade, o outro só viu um pedaço de sua orelha no chão, na sequência fez o mesmo na direita. O comerciante chorava, implorava, mas eram tantas sensações que praticamente não conseguia nem levantar a cabeça.

O homem então pega sua cabeça e a levanta, num lapso de resposta, o comerciante cospe nele uma mistura de lágrimas, saliva e sangue. O homem se limpa e diz - Cachorrinho malcriado vai ter que usar focinheira. E trouxe uma de metal que mais parecia um arreio de cavalo, colocou e disse: - Como você foi malvado, vai ter que fazer uma escolha: cada vez que você comer, esse mecanismo que está dentro da sua boca vai rasgar ela um pouco, então você escolhe, ou come e rasga a boca ou passar fome. - Antes de sair, o homem colocou uma tigela de comida na frente dele e saiu.

Na clínica o luto ia passando, depois de alguns dias recluso, ele saiu e começou a socializar. Seria um sinal de melhora? Participou de algumas atividades, leu jornal e assistiu televisão.

Enquanto isso, o comerciante fez a escolha, dias sem comer doíam mais que uma boca rasgada. Comeu aquela comida com prazer mesmo quando se misturou com sangue do seu rosto.

Quando o homem voltou, o comerciante estava com a boca rasgada até a altura dos olhos. Ele foi até a mesa, pegou um alicate grande e começou a falar: - Existem casos de cães que precisam ter as unhas e até parte dos dedos cortados para garantir sua saúde - Chegou próximo, e avaliou as mãos presas e foi dedo a dedo prensando com o alicate. E esmagou até a falange distal dos dez dedos.

Os dias de tortura fizeram o comerciante ficar alerta, por mais dor que sentisse, ainda estava lúcido, tentava falar, mas o corte na boca atrapalhava. O homem então retirou a focinheira e colocou na frente dele um espelho e disse: veja o que você é agora, veja quem você é de fato.

A cena de horror lhe deu forças para dizer: - você pode me matar, mas seus cachorros estão podres, não voltarão e nada que você faça vai apagar o prazer que tive com as mortes.- Nesse momento, o homem pegou o chicote e deu-lhe várias chicotadas e disse: - cachorro mau em tom irônico.

Mesmo gemendo veio mais: - Não sei qual era seu cachorro, mas tive o prazer de matar os cães daquele médico metido a salvador dos cachorros. Nesse momento, o homem se aproxima, levanta a cabeça dele com uma mão e começa a tirar o disfarce, o cabelo, a barba, as tatuagens… tudo falso! E diz: - eu sou o médico e você matou meus melhores amigos. e completou: - Os anos de teatro na infância serviram, criei uma personagem, te investiguei e planejei tudo, inclusive nossa briga e a minha internação.

O comerciante novamente retrucou: - Não adianta, vão descobrir que foi você! - O homem respondeu: Quer apostar? Para todos os efeitos, estou na clínica, sua morte vai parecer um acerto de contas por conta das drogas que vão achar no seu estabelecimento e a última vez que você se alimentou, ingeriu um composto com pó de alumínio que mata sem deixar vestígios. Adeus!

Após isso saiu sem olhar para trás. 

Na clínica ele parecia estar recuperado, sentado assistia à TV, quando o plantão interrompeu “homem é encontrado em galpão com sinais de tortura e mutilações, a suspeita é que seja por acerto de contas, já que a polícia encontrou drogas em seu estabelecimento”.

Desligou a TV, levantou e foi até a administração e disse sorrindo: - Quero minha alta!


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segunda-feira, 6 de julho de 2026

MESSI É AUTISTA OU TEM ALGUM TRANSTORNO DO GÊNERO?

 

Foto: arquivo do blog

Depois de vencer a Copa do Mundo do Qatar com a seleção argentina, uma velha discussão sobre Messi voltou à tona: Messi seria autista? Escrevi essa coluna a pouco tempo e falo sobre essa invenção.

Logo que surgiu para o futebol, o ainda menino Lionel Messi espantou o mundo pela capacidade que tem com a bola nos pés. Não à toa ganhou o apelido de “ET” relativo à extraterrestre, já que muitos o consideram de outro planeta. 

A genialidade e o nível de habilidade com a bola nos pés, concentração e capacidade de tomar decisões rápidas fizeram de Messi um dos maiores de todos os tempos, capaz de conquistar seis bolas de ouro, inúmeros títulos e artilharias. É tão gênio, que conseguiu até levar a Argentina para a final de uma copa do mundo em 2014, uma seleção de grandes valores individuais, mas que tinha sérias dificuldades coletivas. Oito anos depois ele novamente conduz a Argentina para a final, mas dessa vez levantando a taça.

Mas voltando ao craque argentino, uma das formas de tentar explicar o talento subumano de Messi foi dizer que ele era autista, pois somente um “autista” para ter essa capacidade de concentração e realização, e suas atitudes reservadas com a timidez, durante um tempo reforçaram esse estereótipo. 

No entanto, essa informação foi refutada por fontes ligadas ao atleta e também por médicos, a partir disso, começou a circular que Messi realmente não era autista, mas sim, Síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo caracterizado pela grande capacidade de aprendizagem e concentração, o que em tese justificaria as habilidades de Messi, porém, uma das características da Asperger é a sensibilidade auditiva o que inviabilizaria a presença dele em um campo de futebol devido ao barulho dos torcedores.

Outro ponto que refuta essa ideia de autismo ou síndromes similares é o livro O garoto que virou lenda de Luca Caioli, que conta a história de Messi, no livro ele fala do tratamento pago pelo Barcelona para uma condição ligada ao crescimento que ele apresentava, porém, em nenhum momento esse tratamento afeta as características esportivas de Messi, visto que o próprio Caioli descreve as façanhas de Messi em Rosário na Argentina ainda na infância.

Além de desinformar, afirmar que Messi seria autista ou teria algum transtorno do gênero,  difundir essa história é uma prática de capacitismo, pois para tentar justificar a síndrome se das características “incríveis” a quem a possui, sendo que isso não é regra, além disso essa prática é uma das formas mais preconceituosas usadas contra as pessoas com deficiência.

Então agora que você já sabe que muito do que se fala de Messi é lenda, se você tem a oportunidade de ver ele jogar, aproveite, pois é um dos maiores de todos os tempos. E principalmente, evite estereótipos. 

Texto escrito originalmente em 2019, reescrito em 2022 e repostado em 2026.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

DO CAMPO DE REFUGIADOS AO REFÚGIO DO CAMPO

 

Foto: Internet/Reprodução


Quem gosta de futebol, gosta de ver Modrić jogar. É simples, complexo, calmo, invisível, mas amplamente decisivo. No entanto, toda essa calma é fruto da turbulência. Modrić é filho da guerra, infelizmente, viveu no auge dos conflitos na antiga Iugoslávia.

Nascido em Zadar, no litoral da Croácia, Modrić deixou a cidade com a mãe e com os irmãos e passou a viver como nômade em hotéis. Refugiava-se em locais diferentes tentando escapar da guerra. Dizem que aprendeu a jogar bola no estacionamento dos hotéis.

Toda a tristeza da guerra, a pobreza, a distância da sua terra poderia ter apagado o brilho de Modrić, mas a tristeza sua e de seu povo foi o combustível para se transformarem um dos maiores camisas 10 contemporâneos.

O menino da guerra, acalma o jogo, controla os ânimos, é lúcido em meio ao caos. É um gênio discreto.

Do Dínamo Zagreb ao Real Madrid, Modrić viu na bola a esperança de felicidade, e venceu a sua guerra dentro das quatro linhas. Encontrou no campo seu refúgio, na camisa 10 sua liberdade, no meio-campo a maestria.

Melhor da copa, melhor do mundo. Melhor para si mesmo e para seu povo. Crescer em meio a guerra teve um propósito, semear a paz por meio da bola.

Vitoriosos são aqueles que compreendem a tristeza e a transformam em alegria, mesmo que seja para os outros.

Texto publicado originalmente durante a copa de 2022. 

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