sábado, 11 de julho de 2026

DOIS CACHORROS

Foto: criada pelo Gemini

 Talvez ele nunca tenha vivido sem a presença de cachorros. Desde suas primeiras lembranças sempre há um cãozinho presente. Seja os da chácara da sua avó, da rua, que levava para casa ou dos que apareciam em seu portão pedindo comida ou água e retribuindo com muito carinho. 

Crescer rodeado de cães e outros animais fez dele um defensor da causa. Tornou-se médico veterinário e usava seu conhecimento para ajudar ONGs e animais abandonados. 

Lembrava com carinho de seus companheiros caninos, os seus inclusive, carregava na pele uma tatuagem. 

A nova vida numa metrópole fazia pela primeira vez com que ele não tivesse cachorros. Não achava justo com o animal deixar ele trancado num espaço de 50 metros quadrados. 

Mas isso estava prestes a mudar. Estava decidido a mudar de vida, morar numa cidade menor, num terreno grande, uma casa tranquila com pelo menos dois cachorros. 

Não foi difícil achar a casa. Seus amigos da ONG indicaram um condomínio em construção, terrenos grandes, segurança e tranquilidade.

Agora o desafio era escolher os parceiros caninos, pensou em adotar, pegar um da rua mesmo, mas algo martelava em seu pensamento. Recentemente ele havia tratado um Dog Brasileiro, cão surgido nos anos 1970 em Caxias do Sul, da mistura de Bull Terrier e Boxer. 

Resolveu ir até lá, conheceu vários canis, até encontrar seus novos parceiros. Um todo branco e um todo preto, chamou-os de Sombra e Escuridão, em referência ao lendário filme dos leões na África. 

E por falar em leões, os cães eram fortes de porte médio, latido forte e extremamente leais. Perfeitos para a guarda da propriedade. A relação com eles era ótima, pois além de proteger a casa, ele sabia que ao chegar teria companhia para passar as noites e os  momentos em que não estava no trabalho.

Aproveitando seus conhecimentos e vivência com os animais para treiná-los. Eles eram cães de proteção, porém, também eram cães de companhia, por isso, treinamento era essencial.

Em meio a isso, não faltava diversão, banhos de mangueira em dias quentes, futebol no fim da tarde, brincadeiras na chuva. Os cães faziam a alegria dele, e também, de algumas pessoas na vizinhança, principalmente, das crianças.

Apesar de serem cães grandes e fortes, eles eram extremamente dóceis e carinhosos com as crianças.

Foto: criada pelo Gemini

Era quase tudo perfeito, já que alguns vizinhos ainda eram receosos por causa dos cães no condomínio. Especialmente um, o comerciante do condomínio não gostava dos animais e expressava isso abertamente, xingava os animais quando passava em frente a casa, fazia campanha nos grupos de WhatsApp sobre o perigo daqueles animais que segundo eles eram “selvagens”.

Porém, nunca havia tido qualquer incidente, bem ao contrário, tanto Sombra quanto Escuridão cuidavam da casa deles e dos vizinhos. Os latidos fortes e o porte imponente afastavam curiosos.

Mas nem mesmo isso acalmava o tal vizinho que parecia ter uma obsessão nos animais. Inclusive por diversas vezes já havia denunciado a presença deles para a Guarda Municipal, mas como não havia evidências ou incidentes, as denúncias eram vistas apenas como reclamações.

Aquela semana foi diferente. Triste. Sem futebol, sol, mas com muita chuva. Os cães estavam tristes por não poder fazerem o que mais gostavam. No entanto, a tristeza da chuva, não seria nada comparada ao que viria, aquela casa, aquela rua e aquele bairro não seriam mais os mesmos. 

A noite escura e o céu carregado permaneceriam ali por muito tempo. Tudo começa numa das tantas noites de chuva, pois os cães não vieram o encontrar, mas estava tudo bem, apenas não queriam se molhar.

Nas redes sociais o comerciante continuava a difamar os animais, era tão chato que ninguém mais ligava, mas ele seguia naquilo que parecia ser sua missão, uma obsessão quase doentia.

No dia seguinte a chuva seguia e novamente os cães não estavam à sua espera, tranquilo ele deduziu que era por conta da chuva. Porém, achou estranho que havia marcas na grade e marcas de pegadas na grama. 

Seguiu as pegadas, o caminho antes, rápido e rotineiro, parecia não ter fim, a bagunça e a sujeira atrapalhavam os passos, até que ele viu algo que o faria de vez parar de andar. A pata de um dos cães e a porta entreaberta, ele acelerou e viu a cena que mudaria para sempre a sua vida.

Seus melhores amigos estavam desacordados, no desespero puxou-os para fora para tentar reanimá-los, porém, nada funcionava, naquele momento as lágrimas já se misturavam com a água da chuva quando ele os colocou dentro do carro e levou para uma das clínicas que trabalhava. Fez tudo o que pode desde reanimações até exames e procedimentos, mas nada adiantava.

Ali naquele momento, o médico deu lugar ao homem que amava seus amigos sobre todas as coisas. O choro era de dor, raiva, impotência, a mais pura tristeza de um ato inexplicável, afinal, eles não faziam mal a ninguém, mas faziam muito bem a ele.

Sozinho colocou os cães numa mesa cirúrgica, tirou sangue e examinou, abriu a barriga e retirou do estômago uma massa de cor estranha que parecia uma mistura de várias coisas.

Usando os equipamentos da clínica fez exames no sangue e naquela coisa que estava no estômago dos animais. Encontrou a substância xilitol. Essa substância pode causar um aumento na insulina que circula no corpo do cachorro. Isso pode diminuir o açúcar do sangue e levar à insuficiência hepática (problemas no fígado) e em grande quantidade leva à morte.

Estava provado, seus amigos haviam sido mortos, chamou a Guarda Municipal, fez a denúncia e pediu uma investigação. A notícia logo se espalhou e foi um misto de dor, comoção e homenagens aos cães e seu fiel amigo que ficava sozinho.

Os dias seguintes foram os piores da sua vida, a solidão da morte, não era parecido com nada que já havia vivido. A casa ficou imensa, o jardim perdeu a cor, nem o sol que voltou brilhava para ele. Era difícil pensar, levantar da cama, trabalhar, respirar. Não haviam palavras, atos, desejos. A tristeza tomava seu corpo, circulava em suas veias, transpirava por sua pele.

A cabeça vazia só pensava em uma coisa: Vingança. Mas do que, de quem? O tempo livre começou a fazê-lo raciocinar, começou a juntar as peças do macabro quebra-cabeça do vazio da sua vida. E todos os caminhos levavam ao vizinho comerciante que odiava seus cães, o homem que chegou a soltar fogos ao saber da morte. 

Tomado pela raiva foi até o comércio do homem, o pegou pelo colarinho e o arrastou para a rua, mas antes que pudesse agredi-lo, os outros vizinhos o separam e o seguraram. Essa atitude foi interpretada como irracional, afinal a tristeza ainda era grande e a ferida estava aberta. Diante disso, seus amigos e colegas acharam que isso era um caso de tratamento médico, à força, o levaram num psiquiatra que o diagnosticou com uma profunda tristeza e um trauma por tudo o que havia visto e vivido.

O médico recomendou afastamento da casa e um período em uma clínica para que pudesse ser acompanhado por uma equipe de profissionais. Estranhamente, ele aceitou sem reclamar.

Na clínica ele não interagia com ninguém, não conversava nem mesmo nas sessões de terapia. Apenas rabiscava um caderno e se trancava no quarto por horas, às vezes mais de um dia, em diferentes momentos, os funcionários tiveram que recorrer à chave reserva para entrar, mas como nunca houve incidentes graves, não retiravam a chave dele.

Enquanto isso, o comerciante do bairro continuava a viver sua vida normalmente. Até que aquele homem chegou, alto, forte, tatuado, cabelo e barba compridos e pediu um remédio para silenciar cachorros, essa era a senha para o composto de xilitol. Ele abriu uma gaveta embaixo do balcão e entregou para o homem um composto de uma massa cinzenta e disse - Isso é tiro e queda, testado e aprovado - o homem sorriu, pagou e saiu. O comerciante baixou a porta de metal satisfeito com o dia e com o lucro extra.

Na clínica, ele parecia bem, ainda em silêncio com seu caderno trancou-se e avisou - preciso ficar sozinho - suas únicas palavras na semana. No condomínio, pela primeira vez em anos, a porta do comércio não se abriu, mas como não havia nenhum comunicado especial, pensaram que poderia ser um imprevisto ou até mesmo uma folga. O que ninguém sabia é que na noite anterior, logo depois de baixar a porta, ele teve uma visita, o mesmo homem que comprou o composto, estava ali e o atingiu na cabeça.

Ao acordar com a cabeça inchada e sangrando percebeu que estava num lugar estranho, uma espécie de galpão, úmido e fedorento. Ao sentir frio percebeu que estava nu e preso em uma coleira, os braços e pernas também estavam presos, parecia um cãozinho indefeso.

Conforme foi abrindo os olhos foi vendo o homem que havia vendido o composto, sentado à sua frente lhe observando. O pavor que tomava seu corpo era maior que o frio de um corpo nu. Quis gritar e só então percebeu que estava com uma espécie de focinheira que o impedia de falar.

O homem se aproximou e disse: - Espero que goste da sua nova casa. Ele ainda tentou falar, mas a focinheira o impedia.

Logo viu o desconhecido colocar sobre a mesa o composto comprado e perguntar: - então é você que anda matando os animais por aqui?

Novamente ele tentou falar, mas sem sucesso. O homem então pegou um chicote e se aproximou, seus olhos estavam esbugalhados de medo. A primeira chicotada nem doeu tanto, pois o medo era maior, mas na sequência foram tantas que logo ele se anestesiou. Com a pele marcada e o corpo encolhido, ele chorava como uma criança que se perde da mãe na multidão.

Então o homem veio e tirou a focinheira e refez a pergunta: então é você que anda matando os animais por aqui?

Com a voz trêmula de dor e medo, o comerciante respondeu: - Não, eu nunca matei nenhu… Antes de terminar, levou uma chicotada no rosto. O homem foi até a mesa, pegou o composto e disse - Então quem me vendeu isso?

O comerciante apavorado tentou explicar, mas não conseguia falar, pois chorava tanto que não conseguia formular as frases.

O homem então puxou as correntes e o deixou de quatro como se fosse um cachorro. E começou a falar: - Se você não vende porque tinha vários na gaveta? Se você não vende porque lançava essas vendas na sua contabilidade como lucro extra? Se você não vende porque comemorou mortes de animais?

O comerciante ainda tentou argumentar: - eu nunca fiz isso! Tudo bem, vendia sim, mas jamais usei em nenhum animal.

O homem o interrompe: - chega! Eu te investigo há meses. Comprei várias vezes esse composto, inclusive você me deu dicas de como usar, contou até casos de sucesso. Você não pode fugir - nesse momento, o comerciante entrou em pânico, pedia perdão, gritava, implorava. 

Após se acalmar veio a pergunta: - O que você vai fazer comigo?

O homem então respondeu: - Vou me certificar que você nunca mais faça isso e sirva de exemplo para que outros que pensam como você não façam também. - Ao terminar de falar, virou-se e puxou uma mala com vários objetos e colocou sobre a mesa.

Tirou dela um facão daqueles do tipo xingu, muito usado por cortadores de cana-de-açúcar. Caminhou até o homem e disse: - vou te tratar como meu cachorrinho.

Enquanto andava pelo galpão e passava uma lima no facão, explicava para o comerciante procedimento considerados padrões para alguns cães como castração e corte do rabo, que apesar de ser contra, entendia quem fazia. Ao terminar, puxou as correntes que o prendiam para que ele abrisse as pernas e os braços, andou até ele, encostou o facão nos genitais. Nesse momento, novamente, ele implorava, mas os gritos de suplício em nada afetam aquele homem que disse: - Vamos aos procedimentos, primeiro a castração para garantir que não haja reprodução. - Nesse momento, segurou os testículos do comerciante e num golpe seco e rápido cortou os dois. Ele berrava de dor até que o homem disse: - Fique calmo, o corte foi pequeno, vai sangrar um pouco, mas você não vai morrer.

Continuou andando em volta do comerciante e falou sobre a caudectomia, procedimento de corte do rabo dos cães e suas razões históricas. Ao passar por trás dele, mais um golpe seco, na altura do cóccix, que tirou um filete de carne e disse: - Pronto cãozinho, agora você está sem cauda.

A essa altura o comerciante já delirava de dor. O homem ainda colocou curativos para conter o sangramento. Porém, voltou à mesa, e continuou a falar: - Além da castração, o corte do rabo tem outras coisas que podem ser cortadas, entre elas está a conchectomia, que consiste em cortar a orelha dos cães - . Nesse momento, virou-se e segurava uma daquelas tesouras de jardinagem e veio em direção a ele. A cada passo, ele batia as lâminas da tesoura deixando o outro apavorado.

Ao chegar encostou na orelha esquerda e cortou a metade, o outro só viu um pedaço de sua orelha no chão, na sequência fez o mesmo na direita. O comerciante chorava, implorava, mas eram tantas sensações que praticamente não conseguia nem levantar a cabeça.

O homem então pega sua cabeça e a levanta, num lapso de resposta, o comerciante cospe nele uma mistura de lágrimas, saliva e sangue. O homem se limpa e diz - Cachorrinho malcriado vai ter que usar focinheira. E trouxe uma de metal que mais parecia um arreio de cavalo, colocou e disse: - Como você foi malvado, vai ter que fazer uma escolha: cada vez que você comer, esse mecanismo que está dentro da sua boca vai rasgar ela um pouco, então você escolhe, ou come e rasga a boca ou passar fome. - Antes de sair, o homem colocou uma tigela de comida na frente dele e saiu.

Na clínica o luto ia passando, depois de alguns dias recluso, ele saiu e começou a socializar. Seria um sinal de melhora? Participou de algumas atividades, leu jornal e assistiu televisão.

Enquanto isso, o comerciante fez a escolha, dias sem comer doíam mais que uma boca rasgada. Comeu aquela comida com prazer mesmo quando se misturou com sangue do seu rosto.

Quando o homem voltou, o comerciante estava com a boca rasgada até a altura dos olhos. Ele foi até a mesa, pegou um alicate grande e começou a falar: - Existem casos de cães que precisam ter as unhas e até parte dos dedos cortados para garantir sua saúde - Chegou próximo, e avaliou as mãos presas e foi dedo a dedo prensando com o alicate. E esmagou até a falange distal dos dez dedos.

Os dias de tortura fizeram o comerciante ficar alerta, por mais dor que sentisse, ainda estava lúcido, tentava falar, mas o corte na boca atrapalhava. O homem então retirou a focinheira e colocou na frente dele um espelho e disse: veja o que você é agora, veja quem você é de fato.

A cena de horror lhe deu forças para dizer: - você pode me matar, mas seus cachorros estão podres, não voltarão e nada que você faça vai apagar o prazer que tive com as mortes.- Nesse momento, o homem pegou o chicote e deu-lhe várias chicotadas e disse: - cachorro mau em tom irônico.

Mesmo gemendo veio mais: - Não sei qual era seu cachorro, mas tive o prazer de matar os cães daquele médico metido a salvador dos cachorros. Nesse momento, o homem se aproxima, levanta a cabeça dele com uma mão e começa a tirar o disfarce, o cabelo, a barba, as tatuagens… tudo falso! E diz: - eu sou o médico e você matou meus melhores amigos. e completou: - Os anos de teatro na infância serviram, criei uma personagem, te investiguei e planejei tudo, inclusive nossa briga e a minha internação.

O comerciante novamente retrucou: - Não adianta, vão descobrir que foi você! - O homem respondeu: Quer apostar? Para todos os efeitos, estou na clínica, sua morte vai parecer um acerto de contas por conta das drogas que vão achar no seu estabelecimento e a última vez que você se alimentou, ingeriu um composto com pó de alumínio que mata sem deixar vestígios. Adeus!

Após isso saiu sem olhar para trás. 

Na clínica ele parecia estar recuperado, sentado assistia à TV, quando o plantão interrompeu “homem é encontrado em galpão com sinais de tortura e mutilações, a suspeita é que seja por acerto de contas, já que a polícia encontrou drogas em seu estabelecimento”.

Desligou a TV, levantou e foi até a administração e disse sorrindo: - Quero minha alta!


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segunda-feira, 6 de julho de 2026

MESSI É AUTISTA OU TEM ALGUM TRANSTORNO DO GÊNERO?

 

Foto: arquivo do blog

Depois de vencer a Copa do Mundo do Qatar com a seleção argentina, uma velha discussão sobre Messi voltou à tona: Messi seria autista? Escrevi essa coluna a pouco tempo e falo sobre essa invenção.

Logo que surgiu para o futebol, o ainda menino Lionel Messi espantou o mundo pela capacidade que tem com a bola nos pés. Não à toa ganhou o apelido de “ET” relativo à extraterrestre, já que muitos o consideram de outro planeta. 

A genialidade e o nível de habilidade com a bola nos pés, concentração e capacidade de tomar decisões rápidas fizeram de Messi um dos maiores de todos os tempos, capaz de conquistar seis bolas de ouro, inúmeros títulos e artilharias. É tão gênio, que conseguiu até levar a Argentina para a final de uma copa do mundo em 2014, uma seleção de grandes valores individuais, mas que tinha sérias dificuldades coletivas. Oito anos depois ele novamente conduz a Argentina para a final, mas dessa vez levantando a taça.

Mas voltando ao craque argentino, uma das formas de tentar explicar o talento subumano de Messi foi dizer que ele era autista, pois somente um “autista” para ter essa capacidade de concentração e realização, e suas atitudes reservadas com a timidez, durante um tempo reforçaram esse estereótipo. 

No entanto, essa informação foi refutada por fontes ligadas ao atleta e também por médicos, a partir disso, começou a circular que Messi realmente não era autista, mas sim, Síndrome de Asperger, um tipo leve de autismo caracterizado pela grande capacidade de aprendizagem e concentração, o que em tese justificaria as habilidades de Messi, porém, uma das características da Asperger é a sensibilidade auditiva o que inviabilizaria a presença dele em um campo de futebol devido ao barulho dos torcedores.

Outro ponto que refuta essa ideia de autismo ou síndromes similares é o livro O garoto que virou lenda de Luca Caioli, que conta a história de Messi, no livro ele fala do tratamento pago pelo Barcelona para uma condição ligada ao crescimento que ele apresentava, porém, em nenhum momento esse tratamento afeta as características esportivas de Messi, visto que o próprio Caioli descreve as façanhas de Messi em Rosário na Argentina ainda na infância.

Além de desinformar, afirmar que Messi seria autista ou teria algum transtorno do gênero,  difundir essa história é uma prática de capacitismo, pois para tentar justificar a síndrome se das características “incríveis” a quem a possui, sendo que isso não é regra, além disso essa prática é uma das formas mais preconceituosas usadas contra as pessoas com deficiência.

Então agora que você já sabe que muito do que se fala de Messi é lenda, se você tem a oportunidade de ver ele jogar, aproveite, pois é um dos maiores de todos os tempos. E principalmente, evite estereótipos. 

Texto escrito originalmente em 2019, reescrito em 2022 e repostado em 2026.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

DO CAMPO DE REFUGIADOS AO REFÚGIO DO CAMPO

 

Foto: Internet/Reprodução


Quem gosta de futebol, gosta de ver Modrić jogar. É simples, complexo, calmo, invisível, mas amplamente decisivo. No entanto, toda essa calma é fruto da turbulência. Modrić é filho da guerra, infelizmente, viveu no auge dos conflitos na antiga Iugoslávia.

Nascido em Zadar, no litoral da Croácia, Modrić deixou a cidade com a mãe e com os irmãos e passou a viver como nômade em hotéis. Refugiava-se em locais diferentes tentando escapar da guerra. Dizem que aprendeu a jogar bola no estacionamento dos hotéis.

Toda a tristeza da guerra, a pobreza, a distância da sua terra poderia ter apagado o brilho de Modrić, mas a tristeza sua e de seu povo foi o combustível para se transformarem um dos maiores camisas 10 contemporâneos.

O menino da guerra, acalma o jogo, controla os ânimos, é lúcido em meio ao caos. É um gênio discreto.

Do Dínamo Zagreb ao Real Madrid, Modrić viu na bola a esperança de felicidade, e venceu a sua guerra dentro das quatro linhas. Encontrou no campo seu refúgio, na camisa 10 sua liberdade, no meio-campo a maestria.

Melhor da copa, melhor do mundo. Melhor para si mesmo e para seu povo. Crescer em meio a guerra teve um propósito, semear a paz por meio da bola.

Vitoriosos são aqueles que compreendem a tristeza e a transformam em alegria, mesmo que seja para os outros.

Texto publicado originalmente durante a copa de 2022. 

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quarta-feira, 6 de agosto de 2025

IDENTIDADE MARTA

 

Foto: Internet/Reprodução

A quem diga que aspectos táticos, técnicos e financeiros definem o futebol, eu respondo: isso até é verdade, mas só até a bola rolar. Basta o soar do apito para que todas essas teorias fiquem apenas no campo das teorias. Pois não é raro vermos times menos táticos, menos técnicos e pobres financeiramente vencerem aqueles que têm quase tudo o que o dinheiro pode comprar.

Mas como se explica isso? Qual a razão? São somente os deuses do futebol agindo a favor dos menos favorecidos ou apenas coincidência? Poderia escrever páginas e páginas, teses e muito mais, mas não teria uma resposta definitiva.

Acredito que a melhor resposta para essa questão seja: Identidade. Aquilo que não se pode medir, quantificar e, às vezes, explicar, mas que faz diferença, sim.

Cheguei a essa conclusão ao ver o fantástico 4 a 4 da final da Copa América Feminina entre Brasil e Colômbia. Marta, mais uma vez, mostrou por que é a maior atleta do esporte, e mesmo que esteja próxima da despedida, faz valer cada momento que está em campo.

Diferente do futebol masculino, o feminino uniu-se em torno de Marta, envolveu a deusa do futebol e proporcionou a ela a possibilidade de brilhar.

Alguém vai ter que correr mais, alguém vai ter que marcar mais, alguém vai ter que suar mais. Mas tudo bem, é pela Marta e, no fim, é por todas elas.

A identidade Marta tem salvado o amor de torcer para o Brasil. Não só por Marta, mas a final teve seu valor a Colômbia desponta como uma grande adversária para o Brasil no contexto Sul-Americano, capitaneada por Linda Caicedo. As colombianas têm um grande futuro no futebol.

Mas voltando a Marta, seus dois gols foram um recado para quem a desacreditava. O primeiro, um chute forte, com raiva, como se fosse um "basta" sobre qualquer dúvida sobre sua presença na seleção. Já o segundo, um lance digno de uma deusa, que finge cabecear a bola enquanto permite que ela repouse em seu pé, tirando totalmente a chance da goleira.

Marta virou uma identidade para o futebol feminino. Já era uma rainha, uma deusa, uma entidade, mas agora também é um jeito de ser, de jogar, de sentir, de colaborar.

Se elas se sacrificam por Marta, Marta entrega o esperado e o inesperado. E mesmo quando ela falha, a identidade Marta garante que outras atletas sejam protagonistas.

Sem ego, sem desrespeito, sem sentir o peso. A identidade Marta só quer o bem do futebol brasileiro feminino. E mesmo quando Marta parar, a identidade Marta acompanhará quem acreditar que é possível.


terça-feira, 5 de agosto de 2025

MARCELO, VOLTE PARA CASA

 

Foto: Internet - Reprodução.

Voltar para casa é bom. Estar em casa é sinônimo de conforto, segurança e alegria. Às vezes, tudo o que precisamos é do aconchego do lar para estarmos em paz. No futebol, não é muito diferente; a nossa casa é um fator decisivo para conquistas, histórias e memórias. Tem gente que defende que os pilares de um time se constroem na base, no pátio de casa – talvez seja daí que vem a máxima "goleiro bom se faz em casa".

E, por falar em goleiro, logo lembro de Marcelo Grohe, forjado no calvário gremista da Série B. Injustiçado por anos no banco de reserva, desprestigiado em nome de goleiros questionáveis. Pois, como todo bom gremista, esperar era o que ele mais sabia; esperou até que chegasse o seu momento.

Poderia ter brigado, gritado, saído, mas aguentou firme. Nos poucos momentos em que jogava, mostrava que estava pronto. Quando recebeu a oportunidade, parecia que tinha guardado todo o seu brilho. Além das defesas importantes e de entender o que era ser goleiro no Grêmio, Marcelo sabia da responsabilidade de ocupar o lugar de Danrlei; parecia estar abençoado por aquele que carrega Deus no nome e abençoava a meta tricolor.

Soube sofrer para viver as glórias. E foram muitas: entre gauchões, o penta da Copa do Brasil em 2016, o tri da Libertadores em 2017 – com a defesa do século contra o Barcelona, no Equador – e, em 2018, alcançou um recorde pouco celebrado, mas é o goleiro com mais tempo sem tomar gols pelo Grêmio, com 803 minutos, superando nomes como Picasso e Victor.

Se suas passagens na Arábia Saudita não inspiram confiança, se você acha que o tempo dele já passou ou que pode estar colocando em risco sua história... Tudo isso pode ser verdade, mas às vezes o que a gente precisa é só voltar para casa.

quinta-feira, 31 de julho de 2025

A MENSAGEM DE INCLUSÃO DA PRETA GIL

Foto: Internet/Reprodução.

Após a morte da Preta Gil, as redes sociais foram inundadas de posts, frases e lembranças. Naturalmente, para quem a conhecia. Uma oportunidade para quem surfa na onda do momento, independente do tema.

Eu, particularmente, não a conhecia, não acompanhava seu trabalho, mas soube de sua vivência com a doença e de sua coragem em falar abertamente sobre ela e expor suas cicatrizes.

E, por falar em cicatrizes, uma frase me chamou atenção: "Eu não tenho vergonha das minhas cicatrizes". Ela, em especial, além de ser um relato potente sobre levar a vida da forma como ela se apresenta, me fez lembrar de mim e de tantas outras pessoas que, assim como eu, convivem com uma deficiência.

"Eu não tenho vergonha das minhas cicatrizes"

Ser uma pessoa com deficiência naturalmente vai nos trazer cicatrizes. Muitas delas são físicas, seja por cirurgias ou tratamentos que buscam nos "curar", visto que ainda estamos presos ao modelo biomédico e à necessidade de "consertar" as pessoas. Porém, não somente o nosso físico é afetado; muitas das cicatrizes são emocionais, sociais, financeiras e sexuais. Ou seja, além do físico, precisamos lidar com diversas outras cicatrizes causadas por uma sociedade que nos rejeita, nos relega ao lugar do esquecimento, do abandono.

O capacitismo, ainda tão pouco conhecido, falado e explorado, já nos exclui desde antes de nascermos, já nos deixa cicatrizes que vamos carregar ao longo da nossa trajetória.

Mas onde entra a Preta Gil nisso? Na potência da sua frase: "Eu não tenho vergonha das minhas cicatrizes". Ao não termos vergonha de nós mesmos, vencemos o medo. Ao não termos vergonha de nossa história, criamos potência. Ao não termos vergonha das nossas cicatrizes, nos amamos mais. Ao não termos vergonha da nossa luta, vencemos qualquer batalha.

Devemos nos orgulhar de nossas cicatrizes; elas são o mapa da nossa vida. E, quando sentimos orgulho, damos um basta no capacitismo.


segunda-feira, 4 de maio de 2020

CAPITÃO DA INDÚSTRIA

Foto: Internet/Divulgação


Ele sentia-se mal sem saber a razão. Já havia procurado tantos médicos, mas sua doença era um mistério, um grande mistério, poderia ser uma depressão, ou algo parecido, mas com agravantes.
            Sentia-se mal, indisposto, infeliz a solidão de anos começava a incomodar, nesses momentos lembrava até da mulher que abandonou há anos. Abandono este causado pelo trabalho, que durante mais de cinquenta anos fez parte da sua vida e que só o deixou porque foi obrigado.
            Durante essas cinco décadas nunca teve tempo livre, nunca pensou em outra coisa a não ser no trabalho, ele dormia para trabalhar, ele comia para trabalhar, ele corria para trabalhar, só enxergava números, estatísticas, prazos, valores, lucros, débitos, ativo, passivo....
            Lutou ao máximo para não se aposentar, ainda sentia-se útil, jovem e tinha mais experiência de qualquer outro que pudesse vir a substituí-lo, mas obrigado pelo dono da empresa assinou os documentos. Enfim, veio a aposentadoria, junto veio o tédio e a sensação de inutilidade ao perceber que não tinha nada para fazer, pois só sabia trabalhar.
            Sentindo-se assim logo apareceu a tal doença, no primeiro mês não deu muita importância, pensando que logo aquelas sensações ruins passariam, mas passou o mês e tudo continuava igual, ou pior. A sensação de inutilidade, mal-estar, cansaço tristeza, fadiga. Resolveu procurar um médico.
            Chegando ao consultório contou o que estava acontecendo ao doutor que lhe deu um relaxante muscular, explicando que após tantos anos de trabalho seu metabolismo estava estranhando a falta da rotina agitada que tinha antes de se aposentar. Passado um mês ele deveria retornar, quando retornou estava ainda pior, além do cansaço físico era notável o abatimento psicológico, olheiras, desânimo, estava mergulhado em uma tristeza absoluta, o médico ao ver seu estado acrescentou lhe mais um medicamento um antidepressivo, passado mais um tempo ele retornou ao consultório e nada de melhorar, fez inúmeros exames que nada mostravam, mas seu estado físico e psicológico só piorava.
            O médico ao vê-lo e analisar seus exames que nada mostravam ficou intrigado, paralisado na dúvida, pois em todos aqueles anos de profissão jamais havia tratado um caso tão intrigante, ele começava a entender a suposta gravidade de sua doença ao olhar para o médico e ver que ele estava perplexo. Então perguntou a ele: - doutor o que eu tenho? É grave? O médico olhou em seus olhos respirou fundo e disse: - Não sei. Mas continuou: - eu teria duas opções de tratamento para o senhor, interná-lo ou mandá-lo retornar ao trabalho, como acho que a primeira opção será tão inútil quanto foram os tratamentos até agora, peço que o senhor volte a trabalhar.
Ao ouvir aquela noticia, ele parecia renascer, toda a angústia, tristeza, solidão, dores, pensamentos negativos, abatimento psicológico sumiu, sentia o bom e velho capitão da indústria de sempre renascendo das cinzas da aposentadoria. Saiu do consultório direto procurar um emprego, o tempo passou, foi ocupado pelo novo emprego, mas dois meses depois ele retornou.
Aparentemente ele estava bem, feliz, com brilho nos olhos, cheio de planos, mas o doutor ao ler seu nome no prontuário e chamá-lo para a consulta ficou receoso, pois mandá-lo trabalhar era sua estratégia para tentar encontrar uma cura ou um alívio para aquela estranha doença. Ele entrou e sentou, nem esperou e médico começar a falar e disse: - Obrigado por me curar doutor!

PUBLICADO NO JORNAL A FOLHA
DE NOVA HARTZ SEMANAL ANO VIII
EDIÇÃO N° 299 SEXTA-FEIRA 03 DE MAIO DE 2013