Talvez ele nunca tenha vivido sem a presença de cachorros. Desde suas primeiras lembranças sempre há um cãozinho presente. Seja os da chácara da sua avó, da rua, que levava para casa ou dos que apareciam em seu portão pedindo comida ou água e retribuindo com muito carinho.
Crescer rodeado de cães e outros animais fez dele um defensor da causa. Tornou-se médico veterinário e usava seu conhecimento para ajudar ONGs e animais abandonados.
Lembrava com carinho de seus companheiros caninos, os seus inclusive, carregava na pele uma tatuagem.
A nova vida numa metrópole fazia pela primeira vez com que ele não tivesse cachorros. Não achava justo com o animal deixar ele trancado num espaço de 50 metros quadrados.
Mas isso estava prestes a mudar. Estava decidido a mudar de vida, morar numa cidade menor, num terreno grande, uma casa tranquila com pelo menos dois cachorros.
Não foi difícil achar a casa. Seus amigos da ONG indicaram um condomínio em construção, terrenos grandes, segurança e tranquilidade.
Agora o desafio era escolher os parceiros caninos, pensou em adotar, pegar um da rua mesmo, mas algo martelava em seu pensamento. Recentemente ele havia tratado um Dog Brasileiro, cão surgido nos anos 1970 em Caxias do Sul, da mistura de Bull Terrier e Boxer.
Resolveu ir até lá, conheceu vários canis, até encontrar seus novos parceiros. Um todo branco e um todo preto, chamou-os de Sombra e Escuridão, em referência ao lendário filme dos leões na África.
E por falar em leões, os cães eram fortes de porte médio, latido forte e extremamente leais. Perfeitos para a guarda da propriedade. A relação com eles era ótima, pois além de proteger a casa, ele sabia que ao chegar teria companhia para passar as noites e os momentos em que não estava no trabalho.
Aproveitando seus conhecimentos e vivência com os animais para treiná-los. Eles eram cães de proteção, porém, também eram cães de companhia, por isso, treinamento era essencial.
Em meio a isso, não faltava diversão, banhos de mangueira em dias quentes, futebol no fim da tarde, brincadeiras na chuva. Os cães faziam a alegria dele, e também, de algumas pessoas na vizinhança, principalmente, das crianças.
Apesar de serem cães grandes e fortes, eles eram extremamente dóceis e carinhosos com as crianças.
Era quase tudo perfeito, já que alguns vizinhos ainda eram receosos por causa dos cães no condomínio. Especialmente um, o comerciante do condomínio não gostava dos animais e expressava isso abertamente, xingava os animais quando passava em frente a casa, fazia campanha nos grupos de WhatsApp sobre o perigo daqueles animais que segundo eles eram “selvagens”.
Porém, nunca havia tido qualquer incidente, bem ao contrário, tanto Sombra quanto Escuridão cuidavam da casa deles e dos vizinhos. Os latidos fortes e o porte imponente afastavam curiosos.
Mas nem mesmo isso acalmava o tal vizinho que parecia ter uma obsessão nos animais. Inclusive por diversas vezes já havia denunciado a presença deles para a Guarda Municipal, mas como não havia evidências ou incidentes, as denúncias eram vistas apenas como reclamações.
Aquela semana foi diferente. Triste. Sem futebol, sol, mas com muita chuva. Os cães estavam tristes por não poder fazerem o que mais gostavam. No entanto, a tristeza da chuva, não seria nada comparada ao que viria, aquela casa, aquela rua e aquele bairro não seriam mais os mesmos.
A noite escura e o céu carregado permaneceriam ali por muito tempo. Tudo começa numa das tantas noites de chuva, pois os cães não vieram o encontrar, mas estava tudo bem, apenas não queriam se molhar.
Nas redes sociais o comerciante continuava a difamar os animais, era tão chato que ninguém mais ligava, mas ele seguia naquilo que parecia ser sua missão, uma obsessão quase doentia.
No dia seguinte a chuva seguia e novamente os cães não estavam à sua espera, tranquilo ele deduziu que era por conta da chuva. Porém, achou estranho que havia marcas na grade e marcas de pegadas na grama.
Seguiu as pegadas, o caminho antes, rápido e rotineiro, parecia não ter fim, a bagunça e a sujeira atrapalhavam os passos, até que ele viu algo que o faria de vez parar de andar. A pata de um dos cães e a porta entreaberta, ele acelerou e viu a cena que mudaria para sempre a sua vida.
Seus melhores amigos estavam desacordados, no desespero puxou-os para fora para tentar reanimá-los, porém, nada funcionava, naquele momento as lágrimas já se misturavam com a água da chuva quando ele os colocou dentro do carro e levou para uma das clínicas que trabalhava. Fez tudo o que pode desde reanimações até exames e procedimentos, mas nada adiantava.
Ali naquele momento, o médico deu lugar ao homem que amava seus amigos sobre todas as coisas. O choro era de dor, raiva, impotência, a mais pura tristeza de um ato inexplicável, afinal, eles não faziam mal a ninguém, mas faziam muito bem a ele.
Sozinho colocou os cães numa mesa cirúrgica, tirou sangue e examinou, abriu a barriga e retirou do estômago uma massa de cor estranha que parecia uma mistura de várias coisas.
Usando os equipamentos da clínica fez exames no sangue e naquela coisa que estava no estômago dos animais. Encontrou a substância xilitol. Essa substância pode causar um aumento na insulina que circula no corpo do cachorro. Isso pode diminuir o açúcar do sangue e levar à insuficiência hepática (problemas no fígado) e em grande quantidade leva à morte.
Estava provado, seus amigos haviam sido mortos, chamou a Guarda Municipal, fez a denúncia e pediu uma investigação. A notícia logo se espalhou e foi um misto de dor, comoção e homenagens aos cães e seu fiel amigo que ficava sozinho.
Os dias seguintes foram os piores da sua vida, a solidão da morte, não era parecido com nada que já havia vivido. A casa ficou imensa, o jardim perdeu a cor, nem o sol que voltou brilhava para ele. Era difícil pensar, levantar da cama, trabalhar, respirar. Não haviam palavras, atos, desejos. A tristeza tomava seu corpo, circulava em suas veias, transpirava por sua pele.
A cabeça vazia só pensava em uma coisa: Vingança. Mas do que, de quem? O tempo livre começou a fazê-lo raciocinar, começou a juntar as peças do macabro quebra-cabeça do vazio da sua vida. E todos os caminhos levavam ao vizinho comerciante que odiava seus cães, o homem que chegou a soltar fogos ao saber da morte.
Tomado pela raiva foi até o comércio do homem, o pegou pelo colarinho e o arrastou para a rua, mas antes que pudesse agredi-lo, os outros vizinhos o separam e o seguraram. Essa atitude foi interpretada como irracional, afinal a tristeza ainda era grande e a ferida estava aberta. Diante disso, seus amigos e colegas acharam que isso era um caso de tratamento médico, à força, o levaram num psiquiatra que o diagnosticou com uma profunda tristeza e um trauma por tudo o que havia visto e vivido.
O médico recomendou afastamento da casa e um período em uma clínica para que pudesse ser acompanhado por uma equipe de profissionais. Estranhamente, ele aceitou sem reclamar.
Na clínica ele não interagia com ninguém, não conversava nem mesmo nas sessões de terapia. Apenas rabiscava um caderno e se trancava no quarto por horas, às vezes mais de um dia, em diferentes momentos, os funcionários tiveram que recorrer à chave reserva para entrar, mas como nunca houve incidentes graves, não retiravam a chave dele.
Enquanto isso, o comerciante do bairro continuava a viver sua vida normalmente. Até que aquele homem chegou, alto, forte, tatuado, cabelo e barba compridos e pediu um remédio para silenciar cachorros, essa era a senha para o composto de xilitol. Ele abriu uma gaveta embaixo do balcão e entregou para o homem um composto de uma massa cinzenta e disse - Isso é tiro e queda, testado e aprovado - o homem sorriu, pagou e saiu. O comerciante baixou a porta de metal satisfeito com o dia e com o lucro extra.
Na clínica, ele parecia bem, ainda em silêncio com seu caderno trancou-se e avisou - preciso ficar sozinho - suas únicas palavras na semana. No condomínio, pela primeira vez em anos, a porta do comércio não se abriu, mas como não havia nenhum comunicado especial, pensaram que poderia ser um imprevisto ou até mesmo uma folga. O que ninguém sabia é que na noite anterior, logo depois de baixar a porta, ele teve uma visita, o mesmo homem que comprou o composto, estava ali e o atingiu na cabeça.
Ao acordar com a cabeça inchada e sangrando percebeu que estava num lugar estranho, uma espécie de galpão, úmido e fedorento. Ao sentir frio percebeu que estava nu e preso em uma coleira, os braços e pernas também estavam presos, parecia um cãozinho indefeso.
Conforme foi abrindo os olhos foi vendo o homem que havia vendido o composto, sentado à sua frente lhe observando. O pavor que tomava seu corpo era maior que o frio de um corpo nu. Quis gritar e só então percebeu que estava com uma espécie de focinheira que o impedia de falar.
O homem se aproximou e disse: - Espero que goste da sua nova casa. Ele ainda tentou falar, mas a focinheira o impedia.
Logo viu o desconhecido colocar sobre a mesa o composto comprado e perguntar: - então é você que anda matando os animais por aqui?
Novamente ele tentou falar, mas sem sucesso. O homem então pegou um chicote e se aproximou, seus olhos estavam esbugalhados de medo. A primeira chicotada nem doeu tanto, pois o medo era maior, mas na sequência foram tantas que logo ele se anestesiou. Com a pele marcada e o corpo encolhido, ele chorava como uma criança que se perde da mãe na multidão.
Então o homem veio e tirou a focinheira e refez a pergunta: então é você que anda matando os animais por aqui?
Com a voz trêmula de dor e medo, o comerciante respondeu: - Não, eu nunca matei nenhu… Antes de terminar, levou uma chicotada no rosto. O homem foi até a mesa, pegou o composto e disse - Então quem me vendeu isso?
O comerciante apavorado tentou explicar, mas não conseguia falar, pois chorava tanto que não conseguia formular as frases.
O homem então puxou as correntes e o deixou de quatro como se fosse um cachorro. E começou a falar: - Se você não vende porque tinha vários na gaveta? Se você não vende porque lançava essas vendas na sua contabilidade como lucro extra? Se você não vende porque comemorou mortes de animais?
O comerciante ainda tentou argumentar: - eu nunca fiz isso! Tudo bem, vendia sim, mas jamais usei em nenhum animal.
O homem o interrompe: - chega! Eu te investigo há meses. Comprei várias vezes esse composto, inclusive você me deu dicas de como usar, contou até casos de sucesso. Você não pode fugir - nesse momento, o comerciante entrou em pânico, pedia perdão, gritava, implorava.
Após se acalmar veio a pergunta: - O que você vai fazer comigo?
O homem então respondeu: - Vou me certificar que você nunca mais faça isso e sirva de exemplo para que outros que pensam como você não façam também. - Ao terminar de falar, virou-se e puxou uma mala com vários objetos e colocou sobre a mesa.
Tirou dela um facão daqueles do tipo xingu, muito usado por cortadores de cana-de-açúcar. Caminhou até o homem e disse: - vou te tratar como meu cachorrinho.
Enquanto andava pelo galpão e passava uma lima no facão, explicava para o comerciante procedimento considerados padrões para alguns cães como castração e corte do rabo, que apesar de ser contra, entendia quem fazia. Ao terminar, puxou as correntes que o prendiam para que ele abrisse as pernas e os braços, andou até ele, encostou o facão nos genitais. Nesse momento, novamente, ele implorava, mas os gritos de suplício em nada afetam aquele homem que disse: - Vamos aos procedimentos, primeiro a castração para garantir que não haja reprodução. - Nesse momento, segurou os testículos do comerciante e num golpe seco e rápido cortou os dois. Ele berrava de dor até que o homem disse: - Fique calmo, o corte foi pequeno, vai sangrar um pouco, mas você não vai morrer.
Continuou andando em volta do comerciante e falou sobre a caudectomia, procedimento de corte do rabo dos cães e suas razões históricas. Ao passar por trás dele, mais um golpe seco, na altura do cóccix, que tirou um filete de carne e disse: - Pronto cãozinho, agora você está sem cauda.
A essa altura o comerciante já delirava de dor. O homem ainda colocou curativos para conter o sangramento. Porém, voltou à mesa, e continuou a falar: - Além da castração, o corte do rabo tem outras coisas que podem ser cortadas, entre elas está a conchectomia, que consiste em cortar a orelha dos cães - . Nesse momento, virou-se e segurava uma daquelas tesouras de jardinagem e veio em direção a ele. A cada passo, ele batia as lâminas da tesoura deixando o outro apavorado.
Ao chegar encostou na orelha esquerda e cortou a metade, o outro só viu um pedaço de sua orelha no chão, na sequência fez o mesmo na direita. O comerciante chorava, implorava, mas eram tantas sensações que praticamente não conseguia nem levantar a cabeça.
O homem então pega sua cabeça e a levanta, num lapso de resposta, o comerciante cospe nele uma mistura de lágrimas, saliva e sangue. O homem se limpa e diz - Cachorrinho malcriado vai ter que usar focinheira. E trouxe uma de metal que mais parecia um arreio de cavalo, colocou e disse: - Como você foi malvado, vai ter que fazer uma escolha: cada vez que você comer, esse mecanismo que está dentro da sua boca vai rasgar ela um pouco, então você escolhe, ou come e rasga a boca ou passar fome. - Antes de sair, o homem colocou uma tigela de comida na frente dele e saiu.
Na clínica o luto ia passando, depois de alguns dias recluso, ele saiu e começou a socializar. Seria um sinal de melhora? Participou de algumas atividades, leu jornal e assistiu televisão.
Enquanto isso, o comerciante fez a escolha, dias sem comer doíam mais que uma boca rasgada. Comeu aquela comida com prazer mesmo quando se misturou com sangue do seu rosto.
Quando o homem voltou, o comerciante estava com a boca rasgada até a altura dos olhos. Ele foi até a mesa, pegou um alicate grande e começou a falar: - Existem casos de cães que precisam ter as unhas e até parte dos dedos cortados para garantir sua saúde - Chegou próximo, e avaliou as mãos presas e foi dedo a dedo prensando com o alicate. E esmagou até a falange distal dos dez dedos.
Os dias de tortura fizeram o comerciante ficar alerta, por mais dor que sentisse, ainda estava lúcido, tentava falar, mas o corte na boca atrapalhava. O homem então retirou a focinheira e colocou na frente dele um espelho e disse: veja o que você é agora, veja quem você é de fato.
A cena de horror lhe deu forças para dizer: - você pode me matar, mas seus cachorros estão podres, não voltarão e nada que você faça vai apagar o prazer que tive com as mortes.- Nesse momento, o homem pegou o chicote e deu-lhe várias chicotadas e disse: - cachorro mau em tom irônico.
Mesmo gemendo veio mais: - Não sei qual era seu cachorro, mas tive o prazer de matar os cães daquele médico metido a salvador dos cachorros. Nesse momento, o homem se aproxima, levanta a cabeça dele com uma mão e começa a tirar o disfarce, o cabelo, a barba, as tatuagens… tudo falso! E diz: - eu sou o médico e você matou meus melhores amigos. e completou: - Os anos de teatro na infância serviram, criei uma personagem, te investiguei e planejei tudo, inclusive nossa briga e a minha internação.
O comerciante novamente retrucou: - Não adianta, vão descobrir que foi você! - O homem respondeu: Quer apostar? Para todos os efeitos, estou na clínica, sua morte vai parecer um acerto de contas por conta das drogas que vão achar no seu estabelecimento e a última vez que você se alimentou, ingeriu um composto com pó de alumínio que mata sem deixar vestígios. Adeus!
Após isso saiu sem olhar para trás.
Na clínica ele parecia estar recuperado, sentado assistia à TV, quando o plantão interrompeu “homem é encontrado em galpão com sinais de tortura e mutilações, a suspeita é que seja por acerto de contas, já que a polícia encontrou drogas em seu estabelecimento”.
Desligou a TV, levantou e foi até a administração e disse sorrindo: - Quero minha alta!
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