sábado, 1 de agosto de 2026

O VENTRÍLOQUO

Foto: Google Gemini



Viagens de trem não eram comuns, mas eram uma alternativa rápida no trajeto entre o interior e a capital e tornaram-se rotina com o novo trabalho. Naquele dia, estava tudo meio igual: vagão cheio, pessoas e seus diversos odores, suor, perfume, cigarro… uma verdadeira biblioteca de cheiros disponível. Sem falar nos artistas, pedintes e vendedores que passavam de vagão em vagão tentando a sorte do dia. Aparecia de tudo: desde o repentista com seu talento para o improviso até os vendedores de fones com microfone e tudo mais que o Paraguai e a China pudessem criar.

Ele era mais um naquela multidão. Em silêncio, passava a viagem lendo um jornal ou um livro. Ouvia todo o burburinho, mas não participava de nada. Sua expressão era neutra, quase uma mistura de melancolia com tristeza.

Porém, naquele dia as coisas mudariam. Era para ser só mais uma viagem de trem, com os mesmos trajetos, as mesmas pessoas e as mesmas conversas, mas não foi. Entre os artistas que passaram por ele, estava um ventríloquo e seu boneco.

Por alguma razão, aquela cena o prendeu. O artista dava vida a um boneco macabro, um tipo de palhaço misturado com criança que, surpreendentemente, cativava as pessoas com frases bonitas, mensagens de reflexão, brincadeiras e algumas piadas. Apesar da aparência, a figura era simpática.

No entanto, tudo o que o boneco tinha de vida, o homem tinha de melancolia. Apresentava uma fisionomia magra, triste, quase de uma pessoa subnutrida, com roupas velhas e um olhar fundo e abatido.

Logo pensou que o homem poderia ser alguém em situação de rua, uma pessoa que talvez passasse fome e outras privações e gastasse toda a sua energia para dar vida ao brinquedo e ganhar alguns trocados. Por fim, o passageiro voltou ao livro.

Mas, como num passe de mágica, em pouco tempo o artista e o boneco estavam ao seu lado, puxando conversa e tentando fazê-lo de atração no vagão. Ele decidiu ignorar e focou na leitura, porém parecia que aquele palhaço falava dentro de sua cabeça, lendo as frases do livro com a sua própria voz.

Já estava agoniado, sentindo calafrios, quando o trem chegou à sua estação. Desceu rapidamente e caminhou sem olhar para trás. Depois de andar um pouco, aquela sensação ruim passou. Resolveu parar em uma banca e pegar um energético. Enquanto esperava, viu-se refletido no vidro de um prédio. Até aí nada de mais, não fosse pelo palhaço logo atrás dele.

Aquela cena o fez entrar em pânico. Saiu correndo sem pegar o energético ou o troco. Chegou ao prédio onde trabalhava sem ar, com o coração acelerado e suando frio. Quando questionado, justificou que temia estar atrasado.

Na verdade, o temor era outro: aquele boneco macabro parecia persegui-lo. Passou o dia relembrando a cena. Sentia-se protegido ao menos no décimo andar do edifício. Porém, naquele dia, evitou andar sozinho e até mesmo olhar-se no espelho.

Na volta para casa, temia reencontrar o ventríloquo. Chegou a pensar em evitar o transporte, mas foi assim mesmo, e nada aconteceu. Voltou para casa tranquilamente, e tudo parecia estar em paz.

Na hora de dormir, contudo, sentiu novamente aquela sensação ruim e fez uma oração improvisada. Ao pegar no sono, foi como se a cena do dia se abrisse na página do vagão. Era como se o boneco estivesse esperando que ele adormecesse para retornar à sua mente com força. No pouco que dormiu naquela noite, acordava suando, com o coração acelerado, ofegante, com um medo jamais sentido antes.

E, na manhã seguinte, teria que encarar aquilo novamente? Pensou ele. Chegou a cogitar ir ao trabalho de ônibus, mas precisaria de pelo menos três conduções. Quem sabe um carro de aplicativo? Mas era muito caro. O jeito era encarar o trem.

Estava sem entender o que sentia, mas foi mesmo com medo. Naquele dia, ficou extremamente atento, sem leitura ou qualquer distração. Cada estação era uma agonia constante: Onde será que ele vai entrar? Será que já entrou? As mãos suavam, os olhos atentos ardiam, mas naquele trajeto nada aconteceu.

Estaria finalmente livre daquele fantasma? Poderia voltar a fazer o percurso com tranquilidade? Aparentemente, sim. O resto do dia transcorreu na normalidade.

Mas, na hora de voltar para casa, o único estresse previsto era o trem lotado. Não foi apenas isso. Após entrar e conseguir um espaço, quando pensou em relaxar, ouviu aquela voz novamente — a voz que lhe tirara a paz nos últimos dias. O ventríloquo estava no seu vagão.

Como o local estava cheio, ele tentou se distrair com a conversa dos outros, desviar o olhar, pensar em coisas aleatórias que o fizessem esquecer aquele som. Mas parecia que nada funcionava e, quanto mais tentava, mais o homem e o boneco se aproximavam.

Conforme o vagão esvaziava, os dois avançavam. Quando percebeu, já estavam lado a lado. A estratégia de ignorar seguia firme, mas, de repente, algo o arrepiou por inteiro: o boneco aproximou-se do seu ouvido e murmurou:

— Você quer brincar?

Ele se manteve em silêncio, mas o coração parecia que ia explodir. Suava gelado e sabia que a próxima parada seria a última — a sua — e que talvez o homem também descesse ali.

E assim foi. Chegaram à última parada e todos desembarcaram. Ele apertou o passo. Logo ao sair da estação, avistou um táxi, fez sinal e entrou. Cumprimentou o motorista, passou o destino e começou a rolar a tela do celular.

O motorista percebeu sua agitação e perguntou:

— Está tudo bem?

Ele respondeu:

— Sim, estou apenas cansado.

Ao levantar a cabeça para responder, percebeu que o motorista tinha pendurado no retrovisor um chaveiro de palhaço. Manteve a calma, olhou novamente para o celular e, depois de um tempo, ao erguer os olhos e mirar o espelho, viu a silhueta do boneco. Seus olhos paralisaram; o suor escorria pela testa. Ao notar o estado do passageiro, o motorista perguntou novamente:

— Está tudo bem?

Ele apenas balançou a cabeça positivamente.

Ao descer, entrou rápido em casa e trancou tudo, mas não conseguia parar de pensar na figura. Parecia que ela se formava até na fumaça do banheiro durante o banho quente. Tentava respirar, acalmar-se e focar em outras coisas, mas aquilo martelava em sua cabeça.

Resolveu abrir o notebook e pesquisar sobre bonecos de ventríloquo em formato de palhaço, mas não encontrou nada de relevante ou que explicasse aquela súbita obsessão.

Assim que pegou no sono, seu sonho foi o mesmo das últimas noites: estava no trem e, em seguida, o homem e seu boneco apareciam ao seu lado. Geralmente, nesse momento ele acordava, mas, desta vez, foi diferente. Tudo parecia extremamente real: as pessoas, os cheiros, os ruídos.

Ao seu lado esquerdo estava o homem com o boneco. O artista permanecia de olhos fechados, com o palhaço no colo. Aproveitando o momento, observou-o melhor. A roupa velha e rasgada já não chamava atenção; o que realmente o prendeu foi o braço em que o boneco estava encaixado: as veias eram grossas, escuras, e o encaixe parecia aprisionar a mão do velho.

Enquanto observava, o homem virou-se e, sem abrir os olhos, disse:

— Me ajude… estou preso. Ele quer você.

Ao ouvir aquilo, o rapaz ficou sem reação. Tentou disfarçar e se levantar, mas o velho abriu os olhos, segurou o boneco e saiu.

Ele permaneceu ali parado. A taquicardia, o suor e aquelas palavras eram sua única companhia. Tudo ao redor parecia ter se desintegrado. Ao tentar relaxar, foi tocado no ombro. Era um funcionário da limpeza do trem, que avisou:

— Senhor, fim da linha.

Somente naquele instante percebeu que ainda estava no trem. Teria sido um sonho ou apenas um transe provocado pelo medo? Aquela conversa realmente acontecera? Nada fazia sentido, pois sua última lembrança era estar em casa indo dormir.

Independentemente disso, precisava esclarecer a história. Estava decidido a conversar com o velho no dia seguinte e entender o que estava acontecendo.

Na manhã posterior, o homem e seu boneco não surgiram no trem. Sentiu um certo alívio, mas, para quem precisava tirar uma dúvida, aquilo também era um fardo.

No fim da tarde, ao embarcar novamente, avistou os dois. De longe, observou o braço do velho: era exatamente igual ao do sonho. Olhava disfarçadamente, mas, sem que percebesse, o velho também o observou e sorriu.

Ele manteve a expressão neutra, desceu na mesma estação que o artista e o seguiu a distância.

Caminhou cerca de quarenta minutos até se aproximar de um aterro sanitário, onde havia algumas casinhas feitas de papelão e materiais recicláveis. O homem morava entre duas delas, bem na entrada do terreno.

Foi em direção à habitação. Hesitou em bater, mas, quando tomou a decisão, a porta se abriu e o homem falou:

— Estava esperando por você.

Ele ficou sem reação, mas entrou e perguntou:

— Quem é você? E como sabia que eu viria?

O homem respondeu:

— Eu simplesmente sei. Todos sempre vêm, mas nem todos são escolhidos.

Ele retrucou:

— Escolhidos para quê?

O homem olhou para o próprio braço, mostrou o boneco e explicou:

— Para ele. Ele escolhe quem quer usar.

Somente naquele momento o jovem percebeu que o homem ainda estava com o boneco preso ao membro.

O ancião continuou:

— Encontrei esse boneco aqui no lixo. Levei para casa, lavei, reformei… iria doá-lo para alguma instituição. Mas comecei a ter sonhos nos quais o usava em apresentações artísticas e ganhava muito dinheiro. No começo achei que era apenas ilusão, mas parecia que ele falava comigo, que queria ser usado. Até que um dia cedi à tentação e o encaixei no braço. Desde então, sou usado por ele. O dinheiro e a riqueza nunca vieram; estou apenas perdendo o pouco que tenho.

Ele ouvia com atenção, tentando disfarçar o pavor, até que questionou:

— Como sabe disso tudo? E por que não o tira do braço?

O homem respondeu:

— Nessas apresentações no trem, conhecemos muitas pessoas. Certo dia, encontrei um indígena… ou cigano, não sei direito. Ele me perguntou sobre o boneco. Contei a história, e ele disse que o conhecia. Falou que pertencera a um povo que vinculava a energia das pessoas a objetos.

Ele perguntou novamente:

— Mas por que ele não ajudou você a tirá-lo?

O homem continuou:

— Ele até tentou, mas não deu certo. Depois desapareceu, e o boneco grudou ainda mais no meu braço. Por isso as veias estão escuras e grossas. Ele me mantém vivo porque sou apenas o hospedeiro.

— E por que você disse que ele me quer?

— Não sei exatamente. Ele apenas escolhe as vítimas, drena sua energia e depois "apaga", como agora, que parece estar dormindo. Provavelmente quer você porque é jovem, forte e não demonstrou desprezo no primeiro contato.

— Mas… e se eu não quiser?

— Não sei. Talvez ele enlouqueça você até que aceite, como fez comigo. Não há como saber… sequer sei o que vai acontecer comigo.

O rapaz levantou-se, despediu-se e saiu.

Durante todo o caminho de volta, refletiu sobre o que ouvira e buscou soluções para aquele dilema.

Após processar tudo, deixou o medo de lado e passou a acompanhar o ventríloquo no trem, na tentativa de entender melhor o que ocorria, conhecer o homem e encontrar uma saída para a maldição.

A rotina seguiu assim por meses, até que uma amizade começou a surgir entre eles — ainda que mantida com cautela, pois o objetivo principal era vencer a entidade.

Em meio a isso, os pesadelos continuavam. Agora o boneco parecia falar diretamente com o jovem, dizendo que o momento estava chegando e que logo seriam um só.

Foi justamente após um desses pesadelos que ele resolveu se levantar e ligar a televisão. Naquela madrugada, passava uma reportagem sobre biologia em que um professor explicava as relações entre parasitas e hospedeiros, usando células como exemplo.

Aquela informação gravou-se em sua mente. Como aquilo poderia ajudá-lo em sua jornada? Não podia pedir socorro alegando que um espírito em um boneco queria seu corpo, nem saberia explicar à polícia que o velho precisava de ajuda para remover do braço um objeto que ele mesmo encaixara.

Dias depois, enquanto descia as escadas da estação, viu um grupo de pessoas cercar um cachorro de rua. O animal estava coberto de sujeira e carrapatos. Ele tentou ignorar a cena, mas ouviu alguém dizer:

— Precisamos tirar isso dele, senão vão matá-lo!

Automaticamente, lembrou-se da aula sobre hospedeiros e pensou: “E se arrancarmos o boneco?”

Contou ao homem sobre o plano. O ancião achou válido tentar, até porque a criatura lhe sugava a energia e, daquele jeito, ele morreria em breve.

Tentaram puxar, cortar, usar óleo, calor e água para soltá-lo, mas nada funcionava. O boneco tornara-se uma extensão do corpo do homem.

Mesmo assim, o jovem não podia desistir. Continuou pensando em alternativas e chegou a cogitar amputar o braço do velho, mas a princípio abandonou a ideia. Porém, depois de tantas tentativas frustradas, aquela parecia ser a única saída para salvá-lo — e para salvar a si mesmo.

Então traçou um plano. Convidou o homem para um passeio no fim de semana — um trajeto diferente, longe do caminho cotidiano. Iriam de trem, mas por linhas velhas, sujas e perigosas, onde os avisos de “cuidado com a porta automática” eram ignorados devido ao elevado número de acidentes causados pela falta de manutenção nos vagões.

Conforme o combinado, encontraram-se na estação de costume e seguiram viagem.

O homem tentava esconder o objeto, mas o boneco estava ativo, utilizando aquele corpo frágil para se alimentar.

Observando a cena, o sofrimento e a impotência do velho diante da situação, o rapaz teve certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Na hora de desembarcar, ocorreu o tradicional empurra-empurra na saída. Foi nesse momento que ele jogou o próprio corpo contra o homem. O velho escorregou, perdeu o equilíbrio e, na tentativa de não cair, estendeu o braço em que o boneco estava preso.

O membro ficou preso na porta.

A porta fechou.

O trem arrancou.

E o braço foi arrancado do cotovelo para baixo.

As pessoas ouviram o grito do homem e viram a poça de sangue se formar no chão do vagão. O trem seguiu acelerando, levando o braço junto com o boneco.

Seu plano dera certo.

Ao perceber a cena, o rapaz gritou para os passageiros:

— Ajudem aqui! Ele perdeu o braço, mas está vivo!


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